Assédio sexual. Júri do festival de Berlim quer debate para lá do cinema

O júri é composto pelo realizador, guionista, compositor, produtor e presidente do júri Tom Tykwer, pela atriz Cecile de France, pelo fotógrafo e diretor da Filmoteca Espanola Chema Prado, pela produtora Adele Romanski, pelo compositor Ryuichi Sakamoto e pela crítica de cinema Stephanie Zacharek. Fotografia: Fabrizio Bensch/Reuters

O presidente do júri do festival de Berlim, o realizador Tom Tykwer, elogiou o debate que se gerou com as denúncias de discriminação, assédio e abuso sexuais, mas alertou para o facto de os casos extravasarem a indústria cinematográfica.

O que está em causa “não é apontar o dedo a pessoas, mas ao abuso de poder que existe na hierarquia dos locais de trabalho. Isso é que tem de ser combatido”, respondeu, esta quinta-feira, Tom Tykwer, na conferência de imprensa de abertura do festival de Berlim, quando questionado sobre os movimentos de denúncias e campanhas de sensibilização para a discriminação e assédio sexuais – intitulados #MeToo e “Time’s Up”.

Este ano, a direção do festival tinha já anunciado que a Berlinale estaria “fortemente comprometida em lutar pela autodeterminação sexual e contra qualquer forma de abuso”.

A par de vários debates agendados, o festival propõe aconselhamento e apoio gratuito a todos os artistas ou espectadores que quiserem falar sobre situações de discriminação e abuso.

Tom Tykwer. Fotografia: Fabrizio Bensch/Reuters

“Acho que todos concordamos que é positivo que o debate [sobre estas questões] não foi artificialmente concluído”, disse o presidente do júri, sublinhando que a discussão se estende, de uma forma geral, a todas as relações em ambiente laboral.

O festival de Berlim acontece meses depois de ter rebentado o chamado “escândalo Weinstein”, com dezenas de mulheres, incluindo as atrizes Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Mira Sorvino e Ashley Judd, a denunciarem uma série comportamentos sexuais abusivos por parte do produtor Harvey Weinstein.

Desde que foi divulgado o caso, vários escândalos relacionados com acusações de assédio, agressão sexual e até mesmo de violação foram denunciados em vários países do mundo, envolvendo figuras como os atores Kevin Spacey e Dustin Hoffman, os realizadores Brett Ratner e James Toback, os jornalistas Charlie Rose, Glenn Thrush e Matt Lauer, o fotógrafo Terry Richardson e o comediante Louis C.K..

Este ano foi anunciado o projeto “Time’s Up” para apoiar a luta contra o assédio sexual, por mais de 300 atrizes, argumentistas, diretoras e outras personalidades ligadas ao cinema.

Esta quinta-feira, no encontro com jornalistas, a produtora Adele Romanski, que também está integrada no júri oficial, afirmou que procura sempre um equilíbrio de género e identidade quando forma as equipas para rodar um novo projeto.

Esta semana, uma atriz sul-coreana criticou o festival por ter convidado o realizador Kim Ki-Duk a apresentar um filme, “Human, Space, Time and Human”, uma vez que este alegadamente a forçou a filmar cenas de sexo não previstas.

Esteve também a circular uma petição, que reuniu cerca de 21 mil assinaturas, para que o festival substituísse a habitual passadeira vermelha por uma preta, em sinal de protesto pela discriminação e abuso sexuais.

O Festival de Cinema de Berlim, que conta com seis filmes portugueses na programação, três dos quais na competição de curtas-metragens, abre hoje com o filme “Isle of dogs”, de Wes Anderson.

É a primeira vez que o festival de Berlim abre com um filme de animação, que conta com as vozes de, entre outros, Edward Norton, Bill Murray, Scarlett Johansson e Tilda Swinton.

TEXTO: Lusa