Daniel Oliveira: “Sim, sinto-me preparado para outras funções e novos desafios”

No dia em que apresentou o seu mais recente romance, “Sobre o Amor” (Oficina do Livro), Daniel Oliveira fala dos afetos e da falta deles, do seu crescimento na televisão e de como se sente comprometido com o atual projeto SIC, embora não esconda que se sente preparado para novos desafios, se esse for o entendimento de quem manda na Impresa. No Dia Mundial da Televisão, entrevista exclusiva ao ex-miúdo que entrou na SIC aos 16 anos e que hoje, aos 36 anos, tem funções diretivas e já leva 400 emissões do “Alta Definição”.

TEXTO: Nuno Azinheira

“Sobre o Amor”. É assim que se chama o seu mais recente livro, que apresentou esta terça-feira em Lisboa. O que é que sabe do Amor, afinal?
Todos nós sabemos alguma coisa sobre o Amor, mesmo que seja sobre o sentido mais lato do termo. O Amor que tivemos em excesso ou que tivemos em falta. O Amor que é fraternal ou outro tipo de Amor. O que eu sei sobre o Amor é também aquilo que eu sinto e procuro descodificar em mim e nos outros. Acho que estes oito anos de “Alta Definição”, que assinalámos no passado sábado, também me ajudam a perceber alguma coisa sobre esse assunto, quer pelos interlocutores que tive, quer pela forma como muitos deles se descodificaram a si próprios.

Sente que uma entrevista como aquelas que conduz no “Alta Definição” é, no plano da relação entre entrevistado e entrevistador, uma dádiva, um ato de Amor, num sentido mais lato, evidentemente?
Sim, acho que sim [pausa]. É uma pergunta interessante, essa. Para já, há uma relação de confiança que se estabelece. Eu sinto essa responsabilidade daquilo que me estão a entregar em mãos. Quem vem ao programa entrega-nos a sua vida e faz-nos aquelas confissões para que nós as tratemos o melhor possível. Sinto que há muita generosidade e confiança por parte dos convidados quando aceitam os meus convites.

Há alguns demoram muito tempo a aceitar…
[risos] É verdade. Ainda este sábado, Jorge Jesus admitiu que eu já o tinha convidado há muito tempo. As pessoas têm todas os seus timings, os momentos em que sentem que é oportuno falar, ou quando sentem que já estão preparados para falar sobre determinados assuntos da sua vida. Aliás, é curioso perceber a relação entre o tempo e o Amor.

“CADA CASO É UM CASO E CADA PESSOA VIVE O AMOR DE UMA FORMA DIFERENTE. AQUI NO LIVRO HÁ UMA PERSONAGEM QUE DIZ ISSO: QUEM TEVE AMOR EM EXCESSO SENTE O AMOR DE UMA FORMA DIFERENTE DE QUEM O TEVE EM DÉFICE

É disso que trata o livro.
Sim, é verdade. O que procurei foi extrapolar as diversas formas de Amor de que falava há pouco e o que o tempo faz ao Amor. De que forma é que o tempo altera o Amor.

O nosso?
O nosso e o daqueles que partiram. O livro fala muito da forma como aqueles que partiram continuam em nós. Continuam intactos tal como estavam no dia em que partiram ou alteram-se?

Chegou a alguma resposta?
[pausa] Acho que a memória vai sublimando algumas coisas. A essência do Amor acho que se mantém, mas a intensidade, necessariamente, será outra, porque não há a relação de convivência física. Neste livro há um caso específico que eu utilizei da minha própria vida, que é o momento em que uma das personagens conta a um dos seus entes mais queridos que a companheira de toda a sua vida tinha falecido. Eu passei por isso na minha vida. Quando, há um ano e meio, comuniquei ao meu avô que a minha avó tinha falecido foi um momento de grande intensidade. Não foi um momento cerimonial mas exigiu algum cuidado, porque foi um momento que mudou toda a existência para aquela pessoa. Procurei transpor isso para o livro, procurando usar coisas que vivi ou outras de que tenho conhecimento, que deduzo…

A vida nunca nos prepara para isso…
Acho que prepara, nós é que não temos consciência disso, de alguma forma. Mas também há casos e casos e alguns em que a partida, por ser muito mitigada no tempo, faz-se acompanhar de uma certa paz interior. Mas sim, é verdade, acho que nunca estamos verdadeiramente preparados para esse corte de uma raiz que nos empurra para a realidade e para a frente. Eu procuro sempre olhar para esse lado positivo. Obviamente que uma morte nunca tem nada de positivo, mas muitas vezes aproxima-nos mais uns dos outros. Cada caso é um caso e cada pessoa vive o Amor de uma forma diferente. Aqui no livro há uma personagem que diz isso: quem teve Amor em excesso sente o Amor de uma forma diferente de quem o teve em défice.

“O que se notou primeiro em mim foi a minha capacidade de trabalho, mais do que qualquer outra coisa”

Este Daniel dos 36 anos é o mesmo Daniel que fez o jornal “Penalty” aos 13 anos e que começou a colaborar na SIC aos 16? É o Daniel contador de histórias?
Acho que é um Daniel que busca esse fogo urgente, essa busca incessante, de fazer coisas novas. Eu quero fazer. Não fico satisfeito com uma recusa, com uma dificuldade. Não me resigno. Na essência é o mesmo, depois, claro, tem a experiência de mais 23 anos em cima, que fazem toda a diferença. Cheguei até aqui, a fazer entrevistas, a ter cargos de responsabilidade, a escrever livros, com a essência com que comecei. O que se notou primeiro em mim foi a minha capacidade de trabalho, mais do que qualquer outra coisa. Talvez também por isso, o reconhecimento tenha sido primeiramente interno, de quem conhecia esse trabalho, do que externo. Mas acho que também por isso, por ser um crescimento mais sustentado, ergui uma estrutura mais sólida.

Ainda assim, o Daniel é um caso de alguém que chegou onde chegou mais cedo do que era suposto chegar…
[risos] Sim, tenho noção da circunstância praticamente irrepetível e da sorte que me bateu à porta. Não quero negar a capacidade que tive de aproveitar a sorte, porque acho que tive esse mérito de agarrar a oportunidade, de trabalhar muito, de abdicar de muita coisa para me dedicar ao trabalho. A SIC tinha cinco anos nessa altura. Se pensarmos a esta distancia que alguém com 16 anos começa a trabalhar na SIC parece tão irreal e tão irrepetível. Tenho noção dessa sorte, dessa responsabilidade e de que fui capaz de estar à altura de agarrar essa oportunidade que me foi confiada.

E sente que estará à altura de agarrar outras oportunidades, se elas lhe forem confiadas? Numa altura, ainda por cima, em que o audiovisual vive numa encruzilhada difícil…
[pausa] Os tempos são difíceis mas ao mesmo tempo desafiantes, porque nos colocam na perspetiva de sermos nós a construir o nosso futuro. Se nós não formos capazes de ser parte ativa dessa construção, o comboio vai partir sem nós. O tempo que corre atualmente é o tempo de mudar os paradigmas. Nós podemos não saber exatamente o que vai ser, sobretudo do ponto de vista tecnológico, mas sabemos que queremos fazer parte dessa mudança. Mas a realidade é que vivemos tempos sem dinheiro. E provavelmente, não voltaremos a viver com o dinheiro que já tivemos.

O Daniel “vendeu” sempre essa sua certeza de que as boas ideias não têm preço. Até para justificar o sucesso dos programas coordenados por si e feitos com pequenas equipas e reduzidas estruturas.
E é verdade: as boas ideias não têm preço. O que nós procurámos fazer foi reunir os melhores, saber escolher as pessoas certas para as áreas de execução. Isso é fundamental e eu fiz. Tenho o privilégio de trabalhar com os melhores. Esta não é uma frase de motivação. Não, de facto, eles são os melhores. Regressei à SIC [da RTP, onde esteve entre 2003 e 2007] há dez anos e criei os magazines nessa altura. São os programas de entretenimento com mais longevidade da estação. E sempre com a mesma equipa, o que não é por acaso. Tenho dado passos claros. Ainda este ano, a coordenação dos 25 anos da SIC deu-me muita honra. Têm sido passos seguros, no sentido de fazer alguma coisa que gere valor para a empresa e para o mercado. Vivemos num mundo muito turbulento, mas no final de contas, independentemente da forma como as pessoas vão ter acesso aos conteúdos, o que vai contar sempre são as marcas. Um programa de televisão não deixará de ser um programa de televisão se for visto no tablet ou no telemóvel. Provavelmente, não pode ter a mesma duração, tem de ser adaptado à plataforma, mas continuará a ser televisão. Estamos numa mudança de paradigma.

“Não nego que a televisão não se faz sem dinheiro, atenção. Para fazer boa televisão é mais fácil fazer com dinheiro, claro, mas não é impossível fazer sem dinheiro. E é possível fazer coisas mal feitas com muito dinheiro”

Volto a insistir na pergunta que lhe fiz e à qual o Daniel fugiu de forma competente…
[risos]…

Alguém que chegou onde o Daniel chegou com esta idade; alguém que fez este caminho de construção de projetos como o “Alta Definição”, os magazines, a SIC Caras e outros projetos inovadores está mais bem preparado para liderar nestes tempos de mudança de paradigma?
[pausa] É um juízo em causa própria e, portanto, a resposta é difícil. Alguém com essa circunstância de vida está preparado para participar num projeto que tenha essa visão de relevância e de transformação. Alguém com essa experiência tem mais dados para vislumbrar outros caminhos e seguir outras linhas. Mais do que os cargos, o importante é o projeto. Sempre foi isso que me moveu: a participação em projetos ambiciosos e que não se resignem às fatalidades. Acho que é isso que me instiga a ser melhor, mais criativo, mais empenhado. As carências, sejam orçamentais ou de outro tipo, também nos empurram a seguir em frente.

Esse discurso de quem não se lamenta publicamente da falta de dinheiro é sempre um discurso bem visto por parte de quem manda. Tem noção disso…
Não nego que a televisão não se faz sem dinheiro, atenção. Para fazer boa televisão é mais fácil fazer com dinheiro, claro, mas não é impossível fazer sem dinheiro. E é possível fazer coisas mal feitas com muito dinheiro. Acredito que ao longo destes tempos essa capacidade de fazer erguer programas com poucos recursos pode ser importante. E é mérito das equipas que o conseguiram.

Os ensinamentos do xadrez, de que foi campeão, continuam a fazer sentido…
[sorriso] Ah, claro. Muitas vezes no xadrez temos poucas peças, mas é com essas peças que temos de jogar. Mesmo que o adversário tenha vantagem porque tem mais peças, é possível ganhar um jogo com o cavalo, a torre e o rei. Às vezes, temos de jogar com poucas peças e sermos mais estrategas do que os outros.

Nos últimos tempos tenho recolhido informações que dão conta que o Daniel poderá vir, a curto/médio prazo, a reforçar as suas responsabilidades na estrutura diretiva da SIC. Isso é algo que lhe agrada?
[pausa] Eu gosto muito de uma frase que diz que “uma hipótese é uma coisa que não é mas que a gente finge que é para ver o que seria se fosse” [risos]. Aquilo que eu faço atualmente dá-me muito gozo. Há um caminho para evoluir, ou seja, não me vejo a fazer isto a vida toda, porque me sinto com capacidades para fazer mais do que isso. As responsabilidades que me são confiadas ou que me forem confiadas, procurarei sempre fazer o melhor que sei.

… As que vierem a ser confiadas?
Sim, no sentido genérico do termo, claro que sim. Essa é a minha forma de ser. Mas essa questão de que fala, objetivamente, não se coloca agora. A SIC está a trilhar um caminho de futuro e eu faço parte desse projeto. Portanto, mais do que isso é especulação. Não sei se essas pessoas com quem tem falado têm outras informações que a mim não me chegam… [gargalhadas]

“Vinte anos de televisão, com as provas dadas quer na concretização de programas quer noutros domínios, na formação de equipas, na gestão dessas equipas, no envolvimento dos profissionais num determinado objetivo comum, fazem de mim um profissional preparado para novos desafios”

Mas sente-se preparado para funções de maior responsabilidade na direção de programas da SIC?
[pausa] Esse cargo está ocupado na estrutura da SIC, portanto, seria deselegante da minha parte responder-lhe a isso, estando o cargo ocupado por dois colegas meus. Esse juízo não deve ser feito por mim.

Ninguém lhe está a pedir que faça um juízo, nem que deseje a saída dos seus colegas dos cargos que ocupam neste momento. Fiz-lhe uma pergunta simples: sente-se preparado para dirigir a programação da SIC, como faz, num universo mais pequeno, na SIC Caras?
Sinto-me preparado para desempenhar outras funções, sim. Objetivamente, sinto-me preparado para isso. Vinte anos de televisão, com as provas dadas quer na concretização de programas quer noutros domínios, na formação de equipas, na gestão dessas equipas, no envolvimento dos profissionais num determinado objetivo comum, fazem de mim um profissional preparado para novos desafios. Mas, mais importante do que isso, sinto-me comprometido com o projeto que está desenhado pelo CEO [Francisco Pedro Balsemão] e nesse sentido sinto-me parte do projeto. O CEO e nosso “chairman” [Francisco Pinto Balsemão] sabem do meu grau de comprometimento com o projeto e para com a empresa.

Nos últimos 25 anos de televisão, o modelo do day time pouco mudou: talk show, jornal, novela, talk show, concurso ou novela e jornal. Isto é uma inevitabilidade de uma grelha privada horizontal ou vai haver um momento em que a televisão generalista vai perceber que terá de mudar?
Acho que estamos perante uma oportunidade de mudança. E isso decorre da alteração do mercado e dos consumos. O remanescente do que fica para o “free-to-air” obriga-nos a pensar um pouco a forma como olhamos para a televisão generalista. Temos de ter a noção que a nossa concorrência não é já só a nossa concorrência tradicional dos outros canais. Aliás, é cada vez menos. À tarde, a televisão por cabo já tem uma larga maioria dos espectadores. Estamos precisamente no momento em que devemos olhar para essa mudança de paradigma e perceber que abordagem deve ser feita aos conteúdos. Temos de pensar no público que está disponível em cada horário e no comportamento que ele tem. Nesse sentido, acho que não há modelos fechados em nenhum domínio. Tirando os telejornais, que são obrigatórios, claro. Portanto, a minha resposta é “não”, isto não é uma inevitabilidade. Devemos desafiar-nos e procurar outras abordagens, mesmo em espaços que neste momento correm bem.

Portanto, uma vez mais, não quer resignar-se.
Não, não quero. Acho que há, de facto, no day time das televisões generalistas, uma nova oportunidade para olharmos para ele de uma forma diferente.

E faz sentido que essa nova oportunidade deva ser liderada por aqueles que lideraram até aqui as programações?
Esta questão não é apenas geracional. As pessoas que estão à frente dos canais – e a mim não me verão a tecer considerações sobre as mesmas -, se estão, é porque merecem a confiança que nelas depositaram. Temos na SIC, que é o universo que conheço melhor, profissionais altamente qualificados para operar essa mudança. A própria liderança do nosso CEO Francisco Pedro aponta também nessa direção, nesse futuro. O que interessa é a forma como olhamos esse futuro. A frescura mental não vem escrita no cartão do cidadão. Tem a ver com a personalidade da pessoa. E fazer televisão não é uma ciência exata. Tem uma dose de intuição grande, tem uma dose de trabalho grande. É preciso minimizar a exposição ao risco, tentar antecipar problemas, tentar arranjar soluções alternativas para quando eles aparecem. Há uma série de variáveis que estão em cima da mesa e devem ser tidas em conta.

Como é que um profissional experiente como o Daniel vê este momento que o audiovisual português vive de estar há dois meses pendente de uma decisão que autorizará ou não a venda da Media Capital à Altice, com todos os impactos daí provenientes?
Entendo ser mais sensato da minha parte não me pronunciar até termos um sinal da Autoridade da Concorrência sobre o negócio. Partilho da mesma preocupação que o CEO da empresa manifestou perante essa possibilidade. E portanto nada como aguardar.

SIC e RTP têm manifestado a sua feroz oposição ao negócio por considerarem que, a concretizar-se, isso provocará uma concorrência fortíssima e desleal…
Como lhe disse, temos de esperar. A SIC já manifestou a sua posição oficial e portanto não me parece que seja necessária qualquer outra posição.

“É um privilégio poder conversar com quem quero, durante muito tempo, numa televisão comercial. É mais do que um programa de televisão, toca as pessoas. Eu seria espectador do ‘Alta Definição’ se não o fizesse”

Muito bem, mudemos de assunto. Há prazo de validade para o “Alta Definição”, que chegou no sábado aos 400 programas?
Não sei se vamos chegar a esse momento. Até agora, esse prazo de validade não chegou, bem antes pelo contrário. Estamos a caminho do nono ano de vida, nada nos impede que, alguns anos depois, não possamos repetir alguns convidados e, portanto, enquanto o programa mantiver a relevância, e isso é fundamental numa estação comercial, fará sentido. E isso tem acontecido.

E a paixão mantém-se?
Mantém-se, claro. Isso é fundamental. Quando nós sentirmos que a energia não é a mesma, penso que teremos de repensar o formato. Neste momento, vejo-me a fazer o “Alta Definição” durante muito tempo, porque acho que as histórias nunca se esgotam. É possível sempre descobrir boas histórias. Portanto, não creio que tenha um prazo de validade. Acho, aliás, que está numa fase ótima de maturidade. O respeito que granjeou no meio e junto dos convidados dá ao espectador uma sensação de confiança muito boa. Finalmente, é um privilégio poder conversar com quem quero, durante muito tempo, numa televisão comercial. É mais do que um programa de televisão, toca as pessoas. Eu seria espectador do “Alta Definição” se não o fizesse.

Leia aqui a segunda parte desta entrevista