Detidos na Birmânia jornalistas por posse de documentos secretos

Fotografia: Wa Lone/Reuters

O Conselho de Imprensa da Birmânia (Myanmar) revelou esta quarta-feira que dois jornalistas que trabalham para a agência Reuters foram detidos por suspeita de estarem na posse de “documentos secretos da polícia” relacionados com a crise dos rohingyas no estado de Rakhine.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo, que trabalham para a agência de notícias Reuters, foram detidos na noite de terça-feira e acusados de terem violado uma lei ainda do tempo colonial, a Lei dos Segredos Oficiais. A polícia disse que ambos os jornalistas tinham na sua posse cópias de documentos de responsáveis do distrito de Muangdaw, informou Myint Kyaw, membro do órgão regulador dos media na Birmânia.

Agentes na esquadra de polícia onde ambos terão ouvido a acusação negam ter feito qualquer detenção. A Reuters anunciou em comunicado que Wa Lone e Kyaw Soe Oo estão desaparecidos desde a noite de terça-feira.

“Fizemos uma participação por desaparecimento
de pessoa e estamos a fazer tudo ao nosso
alcance para os encontrar.”

Comunicado

O regulador da imprensa birmanesa costumava ser um órgão de nomeação governamental e, neste momento (com um novo governo civil), não é claro se é inteiramente independente.

O estado de Rhakine (norte da Birmânia) é o epicentro de uma brutal operação de segurança por parte das forças armadas birmanesas que já forçou mais de 625 mil rohingyas (minoria muçulmana) a fugir para o vizinho Bangladesh. A campanha militar – classificada como “limpeza étnica” pela ONU e motivo de protestos das agências humanitárias – começou em agosto devido a ataques contra esquadras da polícia na região.

As ONG têm vindo a acusar as forças birmanesas de vários crimes de guerra graves e crimes contra a Humanidade.

Os militares e o governo civil da Birmânia têm vindo a bloquear o acesso de jornalistas e observadores internacionais à região. Apenas podem ir enquadrados pelas autoridades.

A Lei dos Segredos Oficiais, que remonta à década
de 1920, pune este tipo de crimes com
penas de até 14 anos de prisão.

Os jornalistas na Birmânia têm vindo a enfrentar crescentes pressões e mesmo assédio, com vários detidos nos últimos meses. Dois jornalistas estrangeiros e outros dois colegas birmaneses aguardam julgamento – relativo a novas acusações – depois de terem sido condenados a prisão por terem pilotado um drone por cima do parlamento.

TEXTO: Lusa