Passadeira Vermelha: Globos de Ouro de preto contra o assédio. Veja aqui os looks

“Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo”, dizia Ivone Silva na rábula Olívia Patroa e Olívia Costureira, no início dos anos 1980. Quatro décadas depois, é essa a cor de eleição das estrelas de Hollywood para subirem esta noite ao palco do Hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, para a entrega dos Globos de Ouro.

O objetivo não será falta de coragem para arriscarem num visual mas ousado, mas antes manifestarem-se contra os casos de assédio sexual conhecidos nos últimos meses.

Esta é, de resto, a primeira grande cerimónia da meca do cinema desde que o escândalo estalou, em outubro, com o produtor Harvey Weinstein – entretanto acusado por dezenas de mulheres -, alastrando-se depois a Kevin Spacey, Dustin Hoffman ou Jeffrey Tambor, entre magnatas, políticos e gestores. A lista ronda agora os 300 nomes.

O repto de vestir de preto nesta e nas galas seguintes – a Screen Actors Guild no dia 21 e a dos Óscares a 4 de março – foi lançado pela equipa de “Big Little Lies”, que com seis nomeações é a série candidata a mais Globos. Espera-se que as protagonistas Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern e Shailene Woodley desfilem de “luto”.

 

Vozes que se levantam contra

A decisão fez com que Jenny Cooney, membro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (que atribui estes prémios), e Rose McGowan, uma das alegadas vítimas, se pronunciassem contra. A primeira acredita que vestir cores mostraria que as mulheres “não serão mais submissas”; a segunda aponta a hipocrisia de quem sabia e silenciou o comportamento do porco monstruoso” Weinstein, nomeando Meryl Streep.

Apesar de não se conhecer a quantidade de profissionais que aderiram ao protesto, fica a garantia das marcas de alta-costura, que receberam “bastantes” encomendas de trajes negros. E ainda a de Eva Longoria, grávida pela primeira vez, que já disse tratar-se de “um momento de solidariedade, não de moda”. Também Dwayne Johnson se juntar à iniciativa.

Já em palco, atribuir-se-ão prémios e far-se-ão discursos que, certamente, não vão passar ao lado do escândalo. O que fará o anfitrião, Seth Meyers, agora que os casos de assédio são públicos? Não se espera que aconteça como nos Óscares de 2013, quando Seth Mac Farlane se referiu a Weinstein ao afirmar que as mulheres “não terão de fingir mais que se sentem atraídas” por ele. Uma referência vista na época como uma brincadeira, mas que em novembro MacFarlane admitiu ter antes sido um alerta.

 

Festas canceladas

O escândalo tem repercussões nas celebrações em torno da gala. A Creative Arts Agency cancelou a festa que antecede a cerimónia e vai investir o dinheiro num fundo de defesa legal de ajuda as vítimas. Juntou-se ainda à iniciativa “50-50 by 2020”, comprometendo-se a promover e alcançar a igualdade de género na liderança da empresa num período de três anos.

Também a Netflix cancelou a sua festa pós-cerimónia, geralmente organizada com a The Weinstein Company, empresa que era copresidida por Harvey Weinstein.

TEXTO: Ana Filipe Silveira