“Uma partida repentina, sem ensaios”. Nicolau Breyner morreu há dois anos

Foi ator, realizador, produtor e apresentador. Frequentou a Faculdade de Direito, porque tinha o sonho de ser diplomata, mas foi a representação que conquistou o seu coração. Nicolau Breyner morreu há dois anos, vítima de um ataque cardíaco.

“Passados dois anos, ainda continuo à espera de me cruzar com o Nicolau, algures no Chef da Lapa onde tomávamos café, ou à porta de um qualquer estúdio, ou de receber um telefonema inesperado a dizer ‘olá meu querido, olha só para te dizer que te vi ontem, e adorei…’”

A frase é de Herman José, 63 anos, que em 1975 partilhou o palco com Nicolau Breyner na rábula “Sr. Feliz e Sr. Contente” que haveria de dar a conhecê-lo ao país.

Herman não tem dúvidas que a sua ligação a Nicolau “foi muito mais do que só artística”. “A generosidade com que me tratou nos primeiros anos da minha carreira fizeram-me aprender uma lição que mantenho até hoje: a de que a bondade compensa”, reconhece à N-TV o apresentador de televisão.

“Felizmente, deixou-nos um espólio de tal maneira vasto, que não raras vezes podemos matar saudades dele na RTP Memória”, enaltece Herman José ao JN. “Tenho também a convicção de que a sua modernidade o fará manter um lugar cativo da História do entretenimento em Portugal”.

“Faz-me uma falta do caraças”

Teresa Guilherme está como Herman: ainda não se convenceu. “Ainda me custa a acreditar, sim, até porque ele está sempre nas nossas conversas. Entre aqueles que o conheceram bem, estamos sempre a dizer: ‘se o Nico estivesse aqui, ele diria que…'”, conta à nossa revista digital.

A profissional não tem dúvidas em dizer que o amigo “era brilhante e chegava às pessoas como poucos”. E depois “tinha um lado humano incrível”, sempre “cheio de graça, sempre com uma palavra amiga”. “Faz-me uma falta do caraças”, confessa Teresa Guilherme, 62 anos.

A apresentadora e produtora destaca o “sentido de humor” e “a forma pragmática com que olhava a vida”. “Cortaram-lhe as pernas várias vezes, empurraram-no para baixo e mesmo assim ele voltou sempre. E sempre cheio de força, porque tinha o amor do público”, acrescenta Teresa, que conclui de forma emocionada: “Faz-me uma falta do caraças”.

“Ele continua a inspirar-nos”

Para Diogo Infante, “o tempo passou, mas é como se não tivesse passado”. “São dois anos de vazio porque fisicamente ele deixou de estar presente na nossa vida e deixou de nos presentear com o seu talento, com a sua capacidade de olhar em redor. Mas são dois anos cheios, porque o Nicolau e o seu legado continuam entre nós”, começa por dizer Diogo Infante, 50 anos.

O ator, que se encontra a encenar “O Deus da Carnificina” no Teatro da Trindade, recorda “a forma plena como o Nicolau viveu a vida”. “Mas há uma coisa essencial que ficou e que talvez seja para nós, que privámos muito com ele, o mais significativo: uma certa capacidade de não nos levarmos muito a sério”, afirma o ator.

Diogo Infante diz sentir “uma sensação de algum conforto” quando lembra os “ensinamentos que o Nicolau deixou”: “Muitas vezes esquecemo-nos que a vida passa a correr. É preciso sabermos olhar para ela e não deixarmos que ela fuja. Por isso é que o Nico continua a ser tão inspirador para todos nós”, afirma à nossa revista, recordando que “para ele o essencial eram os afetos”.

“Há um espaço dentro de mim que nunca ninguém há-de ocupar”

Felipa Garnel, grande amiga de Nicolau, de quem foi assistente no concurso “Jogo de Cartas” (RTP – 1989-92), diz que o desaparecimento físico do ator “é a prova completa de que aquele cliché de que não há pessoas insubstituíveis é completamente mentira, um absurdo”.

“O Nico é completamente insubstituível para mim. Há um espaço dele dentro de mim que ninguém ocupa e que nunca ninguém há-de ocupar, venha quem vier, haja o que houver”, garante.

Garnel diz que, “apesar das memórias e de todo o legado que ele deixou”, há uma “saudade imensa” que sente todos os dias. “Fisicamente faz-me muita falta. O telefonema diário, a gargalhada dele. Até os suspiros dele, é uma coisa estranha. Essa falta física dói muito”. Mas depois, “há sempre um cheiro positivo, uma coisa boa na lembrança dele”.

“Uma saudade imensa, um carinho imenso”

Também Vítor de Sousa, que contracenou com Nicolau desde os tempos de “Eu Show Nico” e de “Vila Faia”, no início dos anos 80, na RTP1, relembra e lamenta a morte “trágica” do amigo. “Foi uma partida repentina, sem ensaios, e que deixa uma saudade imensa, um carinho imenso. A vida não é justa e por vezes prega-nos partidas”.

“Aprendi imenso com o Nicolau, todos os que passaram por ele aprenderam. Era uma fonte inesgotável de conhecimento”, salienta Vítor de Sousa à N-TV. “Um profissionalismo extraordinário”.

TEXTO: Nuno Azinheira (com Duarte Lago)