Júlio Isidro fica no seu posto na RTP mesmo em tempo de pandemia: “O Inesquecível será o meu último programa”

Júlio Isidro
Fotografia: Facebook Júlio Isidro

Chama-se “No Meu Posto” e é uma declaração de amor de Júlio Isidro ao trabalho e à RTP, que não abandona mesmo em tempo de pandemia. Pelo meio, um desabafo: o último programa aproxima-se.

Júlio Isidro, 75 anos, continua de corpo e alma a trabalhar na RTP, em vários projetos, mesmo com as restrições impostas com a circulação pelo Estado de Emergência e o recolher obrigatório. E logo ele que se insere no grupo de pessoas de risco, devido à idade.

O profissional da estação pública deu um exemplo de amor e dedicação à sua casa de sempre nas redes sociais, num texto muito felicitado pelos seguidores.

“Mesmo nesta emergência vou à televisão quatro dias por semana, três para editar as peças que contam as vidas dos meus convidados e um para gravar dois ‘Inesquecíveis’”, começou por escrever no Facebook.

“Em semanas alternadas, gravo dois ‘Trás prá frente’ com os meus queridos companheiros.
Vou protegido, a máscara que mudo após quatro horas, as mãos lavadas quase que compulsivamente, e muito álcool-gel. Quase não saio da semi obscuridade da sala de edição que partilho com o editor Sérgio Alexandre, já um amigo. Almoço a solo, uma sandes e uma fruta, e volto a casa a meio da tarde”, acrescenta.

“Se estivesse em total confinamento, talvez que a hipótese de contágio estivesse reduzida a menos de 10 por cento. Na televisão, sei que todas as medidas não são exageradas para me defender do vírus, mas tenho consciência de que devo trabalhar para não pensar demais em cenários negros. A palavra de ordem é…distrair-me”.

“Por outro lado, sinto e sei que o ‘Inesquecível’ é televisão útil e que pode preencher alguns vazios de muita gente. Se tem algum cabimento o conceito “Recordar é viver”, talvez que esteja a aligeirar vidas feitas de portas fechadas ao mundo”.

Júlio Isidro não esquece a idade que tem e lembra que muitos jovens reconhecem os mais experientes. “E não são apenas os ‘velhos’ como eu, porque há muitos ainda jovens que querem saber de onde veio o teatro, o cinema, a televisão e as canções de hoje e, particularmente, quem foram os seus protagonistas”.

Segue-se uma conclusão: “O ‘Inesquecível’ será decerto o último programa da minha vida”.

E o que aí vem, entretanto? “Depois pode vir a acontecer uma entrevista no Canal 1 num programa de dia, conferências sobre o que foi a televisão e a rádio, as chamadas entrevistas de vida para encher jornais e revistas, e até talvez convidado para o lançamento de um lar para seniores. Novos lançamentos de relógios, perfumes, roupa desportiva e desfiles de moda, passaram a estar fora da lista dos jovens diretores de marketing… e têm razão”, brinca.

Mais a sério, Júlio Isidro continua. “Continuarei a ir ao Natal da casa do Artista, talvez convidado para um minuto no ‘Natal dos Hospitais’ que já fiz 56 vezes, e gravarei mensagens de telemóvel para programas onde se homenageiam artistas da minha geração.
Se me solicitarem, terei gosto em fazer a locução do concerto de Ano Novo de Viena de Áustria. Já são muitos anos a levantar-me às 8 da manhã no primeiro dia de cada ano.
Amanhã continuarei no meu posto, disposto a fazer o melhor que sei, a apostar na sorte desta roleta onde não quero que me saia o ‘Joker’. Obrigado pelos inúmeros votos de saúde que me vão mandando”, rematou o profissional da RTP.