Almoçámos com Cecilia Krull, a voz do genérico de “La Casa de Papel”. “É o amor que move o mundo”

Começou a cantar na Disney, aos sete anos, mas só no ano passado saltou para a ribalta. Gosta de Portugal, de polvo e de escrever sobre emoções. Almoçámos com Cecilia Krull, a voz do genérico da série “La Casa de Papel”, um tema que tomou de assalto a tabela das canções mais ouvidas um pouco por todo o mundo.

Cecilia Krull é espanhola, tem 31 anos e canta desde que se lembra. Há vários anos que dá voz a genéricos de filmes e séries espanholas, mas estava longe de imaginar que o tema “My Life Is Going On” pudesse ganhar vida própria.

“Quando fazes algo assim não esperas nada e isso é que é bonito, não esperar nada e receber o presente. E isto é um presente. Tinha a certeza que a série ia ser um êxito mas não esperava que a canção o fosse”, admitiu, em conversa com a N-TV.

Mais do que a música introdutória de “La Casa de Papel”, produzida originalmente pelo canal de televisão espanhol Antena 3 e adquirida, depois, pela Netflix, “My Life Is Going On” passou a fazer parte da “playlist” de qualquer fã da série. O facto de ser cantada em inglês ajudou, mas “não foi um fator premeditado.”

“Parte do êxito da canção é esse:
ter sido feita com coração e com verdade”
Cecilia Krull à N-TV

“Venho do jazz, que é americano, ouço sobretudo música americana e tenho mais facilidade em expressar-me em inglês”, sublinha Cecilia, explicando que os responsáveis da série lhe deram carta branca na hora de compor. “A decisão foi minha mas foi algo que surgiu naturalmente. O Álex Pina [criador da série] e a produção deram-me total liberdade e penso que parte do êxito da canção é esse: ter sido feita com coração e com verdade.”

A cantora teve acesso a imagens exclusivas do primeiro episódio e inspirou-se numa personagem em particular para escrever o tema, sem esquecer experiências e aspetos da sua própria personalidade.

“Disseram-me como a série se ia chamar, falaram-me do tema e de algumas personagens. No dia em que comecei a compor vi imagens do primeiro episódio, aquelas em que a Tóquio acaba de perder o namorado, se sente perdida e é contactada pela professor. E foi com base nessas imagens que comecei a escrever a letra. A parte em que canto ‘If I’m loosing now but i’m winning late’ (‘Se estou a perder agora mas vou ganhar mais tarde’, em português) é um pouco sobre o que acontece com a personagem da Tóquio, que se envolve num assalto muito arriscado, mas que pode sair a ganhar se tudo correr bem”, explica, dando o exemplo da personagem da atriz Úrsula Corberó.

“É uma filosofia que funciona para tudo, há momentos maus dos quais podemos tirar experiências positivas. A canção fala também de crescimento, de acreditar no destino, de dar a melhor versão de nós mesmos e acho que isso tem muito a ver comigo”, realça, revelando que tem no amor o seu tema predileto para compor.

“Quase todas as minhas canções falam de amor.
É o amor que move o mundo”
Cecilia Krull à N-TV

“Quase todas as minhas canções falam de amor. É o amor que move o mundo”, considera. “Gosto de escrever sobre emoções, coisas que nos acontecem a todos, que com uma melodia podem expressar um sentimento.”

Filha do pianista alemão Richard Krull, Cecilia apaixonou-se cedo pela música. Cresceu com um piano em casa que era tocado “durante oito horas por dia”, tendo ganhado do pai o gosto pelo jazz. Foi pela mão dele que, aos sete anos, fez um casting na Disney, onde, até aos doze, deu voz a músicas de filmes de animação e dobragens. “Era uma menina de estúdio”, recorda, entre risos. “Na Disney e não só, fiz dobragens para o ‘Harry Potter’, ‘South Park’ e muitos outros.”

Tal como nos tempos da Disney, o sucesso recente deu-se sem que muitos lhe conhecessem a cara ou nem sequer soubessem que era espanhola. Inevitavelmente, há uma Cecilia antes e outra depois de “La Casa de Papel”. “Profissionalmente, sim. Estou em Portugal a fazer uma entrevista e a comer polvo [risos]. Pessoalmente, não. Continuo a ser quem sou.” O sucesso além-fronteiras é motivo de felicidade mas é o filho, Samuel, de nove anos, quem mais vibra com isso.

“Ele partilha muito o meu êxito na escola. Costuma dizer aos amigos: ‘A minha mãe é número um na Turquia, a minha mãe é número um na Argentina’. Vive a minha carreira com muita alegria e naturalidade.”

Além da Turquia ou Argentina, Portugal foi um dos países em que a série e a música fizeram um enorme sucesso, um pouco ao contrário de Espanha, onde o fenómeno de popularidade não foi tão grande até a Netflix entrar em cena.

“Talvez por a série ser espanhola
não tenha sido tão valorizada no país”
Cecilia Krull à N-TV

“Muitas vezes não reparamos ou não apreciamos aquilo que temos em casa”, reconhece a intérprete. “Por exemplo, eu canto desde muito pequena, quase desde que nasci, e quando perguntaram ao meu pai se conhecia crianças que cantavam e pudessem fazer o casting da Disney, inicialmente ele disse que não. Isto é muito típico. Talvez por a série ser espanhola não tenha sido tão valorizada no país.”

Apesar de não ter dado qualquer concerto em Portugal durante os três dias em que esteve em Lisboa, Cecilia promete voltar e garante que os responsáveis pela sua carreira estão a tentar que isso aconteça o mais breve possível.

TEXTO: João Manuel Farinha
AGRADECIMENTO: VIP Grand Lisboa Hotel & Spa