Nuno Markl: “O universo da Marvel é um bocado a minha novela”

O imaginário da Marvel está de volta com a nova série “The Gifted”, que se estreia na terça-feira na Fox. A N-TV mergulhou na onda dos super heróis e ouviu quem, apesar de ter crescido, continua fiel à bonecada.

No começo era… o Homem-Aranha. O ícone da Marvel Comics é provavelmente o super herói de banda desenhada mais idolatrado à escala mundial. Também por Nuno Markl, o conhecido profissional da escrita, da TV e da rádio, ele próprio um apaixonado por “uma enorme maluquice de bonecada”.

“A minha memória mais remota é a da minha paixão pelo Homem-Aranha, que se manifestava na série animada de televisão, numa coleção de revistas com os clássicos do Stan Lee que saíram ali por finais dos anos 70, numa figura articulada do Homem-Aranha que muito chaguei à minha família para ter, e que acabou por me chegar no dia dos meus nove anos, e na lendária coleção de caricas do refrigerante Fruto Real”, conta à N-TV o apresentador, de 46 anos.

De uma forma mais romanceada, Markl não hesita em dizer que, naquela idade, “o Homem Aranha era o sentido da vida” para si. Embora, conceda, “seguido de muito perto pelo Hulk”, outro herói da Marvel. “A minha abordagem ao Hulk era um bocado a mesma que eu tinha aos “bullies” da escola: “Deixa-me cá tentar ser amigo dele, porque é maior que eu”, conta divertido.

Os tempos passaram, Markl cresceu, mas não deixou de continuar a ser um “miúdo grande”. Na sua casa, na linha de Cascais, há heróis para todos os gostos. Dezenas, centenas de bonecos que se vão perfilando como autênticas relíquias. A matemática não entra nestas contas. “Não lhes tenho conta exata, mas são muitos, seguramente. Tenho várias coisas, entre comics e figuras. E algumas bem recentes, porque esta paixão pelas propriedades Marvel tende a entrar pela idade adulta adentro.”

E exemplifica: “Ainda há pouco tempo deitei as unhas a uma caixinha de figuras de PVC dos ‘Guardiões da Galáxia’.” O comunicador admite que gosta de estar “rodeado por estes universos”. “A minha cave é o lugar onde tenho tudo isto e é também o lugar onde escrevo, e estar ali no meio de um tornado de cultura popular inspira-me.”

Das brincadeiras iniciais com o Homem-Aranha, criado em 1962 por Stan Lee e por Steve Ditko, aos dias de hoje, a abordagem mudou.

“Quando era miúdo, estes objetos eram para criar histórias e passar o tempo a brincar. Quando crescemos ficamos com um misto de preservação da nostalgia e uma leitura diferente daquelas obras de arte, porque o são”

“Quando era miúdo, estes objetos eram para criar histórias e passar o tempo a brincar. Quando crescemos ficamos com um misto de preservação da nostalgia e uma leitura diferente daquelas obras de arte, porque o são”, sustenta. E defende que “olhar para comics com 6 ou com 46 anos é uma experiência totalmente diferente”.

“Hoje aprecio o trabalho que ali está de construção de mitologias e a incrível arte daqueles desenhadores, mas sempre com um tremendo carinho pelo que aquilo representou na minha infância e juventude. É também a relação que tenho com o universo Star Wars. Tem a ver com o gosto que eu tenho pela arte de criação de mundos e universos.”

Consciente que hoje há “uma grande, talvez demasiada, oferta de entretenimento”, Nuno Markl confessa que nunca consegue “ver tudo” o que potencialmente lhe pode interessar. Não será o caso de “The Gifted”, a nova série da Marvel que a Fox estreia em Portugal no dia 3.

“Essa série da Fox, o ‘The Gifted’, expande o mundo dos X-Men e se for tão boa como a anterior, ‘Legion’, valerá muito a pena”, afirma que uma das coisas que adora nos “atuais filmes e séries da Marvel é a maneira como tudo está ligado, como tudo é um universo só.”

Em jeito de brincadeira, Markl faz um pedido encarecido à indústria: “Eu agradecia sinceramente que Hollywood parasse de fazer boas séries, porque isto não se aguenta. Não há tempo. É tramado.” Mas não deixa de reconhecer: “Eu não vejo novelas do tempo de Roque Santeiro. O Universo Marvel é um bocadinho a minha novela”.

UM ESCRITOR QUE APRENDEU A LER COM A MARVEL

Se o nome de Markl é indissociável da história da Marvel e do consumo de BD em Portugal, o próprio comunicador identifica um “ainda pior” do que ele. “O Filipe Homem Fonseca é o campeão dos viciados em Marvel”, diz com ironia.

Aos 42 anos, o escritor e guionista, que já escreveu para Herman José e que assinou em parceria alguns dos maiores sucessos de ficção televisiva em Portugal, brinca com esse estatuto. “Eh lá, não sei se sou o campeão dos viciados, mas há uma verdade indiscutível. Se hoje eu sei ler, devo-o à Marvel”. E explica.

“Eu adorava os livros da Marvel, adorava ver os desenhos, que já tinham uma narrativa intrínseca, mas eu quero perceber as aventuras e foi por isso que comecei a aprender a ler”, revela à N-TV.

“Lembro-me do Capitão América e, sobretudo o Demolidor, escrito e desenhado pelo Frank Miller. Foi um virar de página na história da BD, e naquela altura eu não tinha noção disso”

Os primeiros livros da Marvel recebeu-os com “três ou quatro anos” e “aos cinco já tinha aprendido a ler”. “De facto, nasci com esse imaginário, e ele acompanha-me ao longo do tempo”.

O Homem-Aranha, tal como aconteceu a Markl, foi o “primeiro amor”. Mas não o maior. “Lembro-me do Capitão América e, sobretudo o Demolidor, escrito e desenhado pelo Frank Miller. Foi um virar de página na história da BD, e naquela altura eu não tinha noção disso”, recorda.

Quando comparado com “o batalhão de bonecada que o Nuno (Markl) tem em casa, Filipe sente-se pequenino. “Eu é mais livros, não tenho tanta bonecada. Mas a última contagem que fiz de BD que tenho em casa, e já lá vão sete anos, estava em cerca de 30 mil livros. Fui guardando todos, como uma autêntica relíquia”.

Como profissional da indústria de entretenimento e fã da Marvel, Filipe Homem Fonseca espera a estreia de “The Gifted”. “Gosto destas renovações, gosto de perceber o tratamento que as personagens levam agora. E a forma como as personagens se adaptam aos novos suportes”.

A partir de terça-feira, estes olhos de especialistas estarão ainda mais atentos.

TEXTO: Nuno Azinheira