Exclusivo N-TV: A mágoa de Henrique Garcia: “Ainda não sou uma efeméride. Estou vivo e recomendo-me”

 

Completou 70 anos a 7 de fevereiro deste ano. “Três ou quatro dias depois” recebeu uma “comunicação escrita” da administração da TVI. “Foi os parabéns que recebi: mandaram-me para casa. Fui apanhado no radar do excesso de idade”, afirma. Em entrevista exclusiva à N-TV, na hora da reforma, diz-se de “dever cumprido”, não esconde a mágoa pela forma como foi tratado neste momento pela empresa, mas regista a atitude diferente dos colegas e da direção de Informação. Esta terça-feira apresentou simbolicamente o “Jornal das 8”. E depois… adeus. E até já!

Entrevista: Nuno Azinheira

Este é um dia especial para si, seguramente. O que sentiu ao longo deste 1 de maio de 2018?
Sensação de dever cumprido.

Só isso? Nada mais? Nem nostalgia?
[pausa] Nada de nostalgia. Ainda não sou uma efeméride. Estou vivo e recomendo-me.

Portanto, depreendo que por si continuava a trabalhar…
Claro que sim. Por mim, sim, mas fui apanhado no radar do excesso de idade.

Que radar é esse?
[risos] É um radar que a lei faculta às empresas e que a TVI cumpre à regra. Na Função Pública, as pessoas são compulsivamente reformadas aos 70 anos, mas as empresas privadas não têm essa obrigação. Ninguém me impede de ir pedir emprego a uma empresa privada e ela dar-me trabalho. Mas a TVI leva à letra essa lei.

Houve algum cuidado da administração da TVI na forma como tratou consigo este momento?
Não, nenhum cuidado da administração. Foi uma comunicação escrita. Isto não era uma inevitabilidade. Ainda estou na plena posse das minhas faculdades.

“[Este país] Nem é para velhos, nem para novos. Este país não é para ninguém. E para os que estão no ativo também não é. Porque são cada vez mais peças descartáveis”

Este país não é para velhos, como diz o livro de Cormac McCarthy?
Nem para velhos, nem para novos. Este país não é para ninguém. E para os que estão no ativo também não é. Porque são cada vez mais peças descartáveis.

Sentiu-se descartável?
[pausa] Digamos que a atitude da empresa fez-me sentir descartável. E está no seu direito, mas…

… Mas merecia outro tratamento, outra atenção?
Eu e qualquer outra pessoa. Merecia uma coisa diferente, outra consideração. Mas devo dizer que tive da direção de Informação uma atitude completamente diferente. A direção decidiu dedicar-me o dia de hoje e por isso, um dia depois de oficialmente ter terminado o meu prazo na TVI, apresento esta noite o “Jornal das 8”.

“Merecia uma coisa diferente, outra consideração”

Ficou sensibilizado?
Confesso-lhe que o importante para mim é ser reconhecido pelos meus pares. Os ímpares não contam.

Quando soube da inevitabilidade da sua reforma?
Não era uma inevitabilidade, mas recebi uma comunicação escrita da TVI a dizer-me que era chegado o momento de ir para casa. Três ou quatro dias depois de ter feito 70 anos. Foi os parabéns que recebi.

“Agora vou parar um bocadinho. Todo este processo foi secundarizado por uma perda irreparável, a morte da minha mãe. Portanto, agora o mais importante é cuidar do meu pai, que tem 95 anos”

Já me disse que não é uma efeméride e que ainda está vivo e recomenda-se. O que vai ser o seu dia amanhã?
Agora vou parar um bocadinho. Todo este processo foi secundarizado por uma perda irreparável, a morte da minha mãe. Portanto, agora o mais importante é cuidar do meu pai, que tem 95 anos. Essa é a minha prioridade nesta fase. Depois, há que cuidar de mim, descansar um pouco. Tenho filhos com netos que vivem fora e que vêm cá no verão. Portanto, nessa altura vou dedicar-me à criançada. Tenho de me aplicar, até porque eles ainda têm pouco contacto comigo. Além disso, já tinha prometido uma viagem à minha mulher. Portanto, para já tenho muito com que me entreter.

Mas esta manhã no “Você na TV” deu a entender que em setembro volta ao ativo. Como vai ser a sua “rentrée”?
[risos] Não está ainda nada definido, mas vou estudar alguns convites de gente que acha que eu ainda não estou velho e que posso ser útil em alguns projetos.

“Não fecho a porta a nada. Estou à janela como a carochinha”

Esses projetos podem passar pela televisão?
Podem passar pela televisão.

Imagino que, neste contexto de alguma mágoa, não pela TVI…
Não fecho a porta a nada. Estou à janela como a carochinha.

Quando olha para trás, o que vê?
Vejo uma carreira cheia, feita com muito trabalho e à minha maneira, de acordo com aquilo que penso. Vivi muitos momentos. Terei cometido alguns erros, embora não ache que tenham sido demasiados.

Se lhe pedisse, conseguia eleger “o” momento da sua vida?
[pausa] Foram muitos. Acho que não consigo.

E “o” erro da sua vida?
[nova pausa, seguida de sorriso] Não foi bem erro, foi fruto das circunstâncias de um tempo em que não havia telemóveis nem internet, nem informação em cima do acontecimento. Mas não me esqueço que estive na morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, passando ao lado da notícia. Senti a frustração de ter passado por um momento da História de Portugal sem me aperceber do acontecimento. Eu ia cobrir um comício e fui desviado para a queda do avião. Mas não sabia quem ia lá dentro. No local ninguém sabia. Sou alertado por um bombeiro que me diz “parece que ia lá uma alta entidade militar”. Fui para a Televisão [RTP] rapidamente e quando cheguei havia música clássica, não se via ninguém. Cheguei ao gabinete da direção e estavam lá todos: direção e administração. E eu perguntei: “O que aconteceu?”. Responderam-me: “Morreu o Sá Carneiro num acidente de avião”. Portanto, vivi a história sem saber.

Está a preparar o “Jornal das 8”, portanto para terminar: do que se vai lembrar deste dia de hoje?
Os mimos dos meus colegas. E das mil e tal mensagens que tenho acumuladas no telemóvel e que não consigo responder. Obrigado a todos.