“Lavado em lágrimas, cheio de medo de rejeição”. Como Rui Maria Pêgo contou aos pais que é homossexual

O filho de Júlia Pinheiro e Rui Pêgo aproveitou o Dia Nacional do Coming Out, que se assinalou esta quarta-feira nos EUA, para recordar o momento em que contou aos pais que “gostava de rapazes”.

O texto partilhado pelo radialista nas suas redes sociais é emotivo e quer “mostrar que não, não é aceitável que alguém seja diminuído por gostar de alguém do mesmo sexo. Ou por ter uma pele que não é branca”, escreve Rui Maria Pêgo.

No Dia Nacional do Coming Out nos EUA, o filho de Júlia Pinheiro e de Rui Pêgo recordou o momento em que “lavado em lágrimas, cheio de medo da rejeição”, falou aos pais da sua orientação sexual.

“Parece-me um momento interessante para balanços, por mais que a Operação Marquês engorde o ‘feed’ das nossas vidas”, começa por escrever, frisando que sempre teve “um problema com a expressão ‘coming out’ ou ‘sair do armário’. “O ‘assumir’ também não me cai bem. Acho o ‘confessar’ horrível. Toda esta terminologia pressupõe um segredo; uma vergonha; um pecado escuro e sombrio que deve ser posto de lado a todo o custo”, prossegue.

“Foi assim que cresci até aos 19 anos quando acabei por contar aos meus pais, lavado em lágrimas, cheio de medo de rejeição e com uma sensação de perigo iminente, que ‘gostava de rapazes'”.

Rui Maria Pêgo, de 28 anos, lembra que antes dos pais contou “a alguns amigos” e, “mais tarde, às pessoas com quem trabalhava”. E não esquece haver “muita solidão neste processo”. “Não é simples e deixa nódoas na alma durante anos. No meu caso, tenho a sorte de viver rodeado de pessoas que me amam. E de ter nascido de pais que são inteligentes, sensíveis e com a noção do que é gostar”, elogiou, o apresentador, que no ano passado recebeu o Prémio Arco Íris, instituído pela Associação ILGA-Portugal.

No post agora publicado, Pêgo não deixou de partilhar o vídeo que em 2016 antecedeu a entrega do prémio na gala da ILGA

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O radialista sublinha não ser “especial”, mas apenas “um homem igual a tantos outros que tem um megafone nas mãos”.

“Não fazer alguma coisa quase nos 30 era voltar a contribuir para a tristeza do Rui Maria dos 12 que controlava os gestos, os gostos, a voz, na esperança de ser aceite”.

E termina a sua missiva adiantado que recebe, “todas as semanas, mensagens cheias de dor de rapazes, raparigas e tudo o que há pelo meio”. “Todos se tentam descobrir numa sociedade que é nos diplomas aberta, mas na rua violenta. Ainda hoje ouvi gritar de um táxi palavras que só costumo ouvir no cinema português. Gay ainda é usado como um insulto. É por isso que sei – e não é por ter ganho um prémio da Ilga Portugal em 2016, mas obrigado por isso -, que fiz bem. Há ainda muito medo e, sobretudo, muito ódio.
Cabe-nos ajudar a matar a vergonha”.

TEXTO: Ana Filipe Silveira