Nicolau Breyner “teve um final de vida tristíssimo, amargurado. Se fosse rico, estava vivo e feliz”

Numa entrevista franca com Rui Unas, Herman José falou sobre a relação dos artistas com o dinheiro e da sua influência nas suas vidas. O nome de Nicolau Breyner rapidamente surgiu na conversa.

A vida de um artista em Portugal é muito feita, na sua generalidade, de preocupações. Com o dinheiro. A ponto de o comediante, um dos mais reconhecidos na nossa praça, reconhecer que “não há artistas ricos em Portugal.”

“O artista em Portugal é só a ponta do icebergue. Falta o resto. Quando a ponta do icebergue avaria, não há nada em baixo. Acabou. Vai-se para a Casa do Artista.”

Nicolau Breyner não precisou da ajuda da Casa do Artista, que, em 2010, albergava 73 artistas com dificuldades, sobretudo no setor financeiro. Apesar disso, o ator, que morreu aos 75 anos em março do ano passado, não se despediu feliz deste plano da vida.

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“O Nicolau [Breyner] teve um final de vida tristíssimo, amargurado. O mercado começou a apertar, os ordenados começaram a baixar. Os encargos ficam imensos com a família e com a própria saúde. A pessoa, à medida que vai envelhecendo, precisa cada vez mais de gastar dinheiro com ela própria”, revelou Herman José, numa entrevista concedida a Rui Unas, para o podcast “Maluco Beleza”.

“Uma das grandes tristezas do Nicolau
era a falta de dinheiro.”

Revelações feitas por um amigo de longa data, que alcançou num primeiro momento a popularidade graças a Nicolau, ao participar na rábula “Sr. Feliz e Sr. Contente”, no programa “Nicolau no País das Maravilhas”. Datava o ano de 1975 e era exibido no canal de maior audiência em Portugal, a RTP1 (à data, existia há sete anos, para além do Canal 1, somente a RTP2).

“Se o Nicolau fosse rico e tivesse os 600 mil milhões de libras da Madonna, estava vivo e era um tipo feliz. Estava a fazer filmes… Pagava ele”, assegurou. Não é de estranhar. Afinal, Nicolau Breyner era um homem de cinema. Participou enquanto ator em cinco dezenas de filmes, em muitos deles assumindo também o papel de produtor e realizador.

Nicolau Breyner despediu-se da vida aos 75 anos, a fazer televisão. O intérprete era considerado o pai das telenovelas em Portugal, por ter sido o autor e protagonista de “Vila Faia”, a primeira no nosso país. Na altura do seu desaparecimento, o multifacetado artista integrava o elenco da trama “A Impostora”, da TVI.

Amália Rodrigues, outro caso flagrante

Fotografia: Arquivo

Para além de Nicolau Breyner, Herman José falou também de Amália Rodrigues, o nome maior do fado em Portugal.

A fadista teve da mesma forma um final de vida difícil. Uma vez mais por causa de dinheiro. “A Amália [Rodrigues] vivia lindamente porque trabalhava. Quando deixou de trabalhar, começaram a fazer contas e a entrar em pânico. O último jantar que eu tive em casa da Amália foi um ‘Strogonoff’ de frango. E as garrafas eram desirmanadas, porque eram ofertas. Ninguém tinha ido comprar”, relatou.

TEXTO: Dúlio Silva